segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Resenha do livro "Documentos de identidade"

     Resenha do livro “Documentos de identidade – uma introdução às teorias do currículo”, de Tomaz Tadeu da Silva, 2ª Edição, Ed. Autêntica, Belo Horizonte, 2005.
    
     Um livro para abalar as estruturas. Se me dispusesse a definir esta obra – algo que terei grande dificuldade em fazer – eu o faria assim. Em nossa prática escolar cotidiana, muito raramente nos defrontamos com reflexões tão profundas sobre o que fazemos, como fazemos e, sobretudo, por que fazemos. Eventualmente nos deparamos com questões sobre a validade de ensinar um ou outro ponto dos conteúdos conceituais, se tal conteúdo procedimental se adequa mais ou menos àquele ano da escolaridade ou se certo conteúdo atitudinal pode ser avaliado e, portanto, deve ser colocado. Mas as dúvidas que o livro nos coloca vão muito além de tudo isso.
     O autor traça um percurso de investigação sobre o currículo educacional que remonta às origens do termo e sua associação às linhas de produção do taylorismo-fordismo. Partindo de tal ponto, chega às teorias mais contemporâneas, as pós-críticas, comentando cada uma das tendências sempre à luz de um questionamento: o que tal teoria traz de novo para a reflexão sobre currículo e de que modo tais novidades podem afetar nossa visão de educação. É um esforço extremamente rico e interessante de apresentar, de forma quase isenta, as peculiaridades e as fragilidades de cada escola de pensamento. Fascinante!
     Um elemento sobre o qual eu não posso deixar de falar é a bibliografia que acompanha cada uma das apresentações das escolas de pensamento. É ao mesmo tempo desafiador e angustiante imaginar que poderíamos enveredar por uma investigação que aprofundaria cada uma das abordagens vistas e, assim, nos permitiria perceber os elementos, em cada uma delas, que nos engrandeceriam como educadores.
     Por outro lado, se há uma certeza que acompanha toda a leitura é a de que estivemos, quase sempre, muito distantes do nível de aprofundamento a que o livro nos transporta. Somos, quase sempre, muito pouco reflexivos, talvez porque encastelados em nossas certezas “bancárias”, apropriando-me da expressão de Paulo Freire, de que ensinamos e o outro, automaticamente, aprende. Esta obra é um convite a repensar tudo o que fazemos, desde o começo.
     Não posso deixar de fazer uma referência, já que estamos no âmbito do Projeto “Pro dia nascer feliz”, de revisão de nossas práticas pedagógicas no Segmento de 6º a 8º Anos do Colégio São Vicente de Paulo, ao encaixe perfeito da proposição da leitura deste “Documentos de identidade” após a visão sobre “A escola e o conhecimento”, de Mario Sergio Cortella. É o próprio Tomaz Tadeu quem explicita isto, ao afirmar que, hoje, nossas concepções curriculares ainda estão atreladas à ideia de conhecimento como descoberta. E o que se propõe é uma ruptura com tal padrão.
     Enfim, o livro é encantador e inquietante. Aponta para algo que parece ser uma marca do caminho que trilharemos ao longo do próximo ano: a certeza das incertezas em que nos envolveremos, contrastando com a clareza dos valores que defendemos, valores como a primazia da defesa dos interesses dos diferentes, dos marginalizados, da importância da autêntica tradição, da proeminência das relações pessoais. Talvez por isso o autor encerre seu texto com a frase “O currículo é documento de identidade”.

     Cá entre nós...
    
     Creio que a principal contribuição que o livro dá ao nosso trabalho no São Vicente seja reacender o desejo de resgatar o estudo como fonte de revisão da prática. Aquilo que em outros contextos – como, por exemplo, em um curso de pedagogia – seria um manual de listagem de teorias pode e deve ser, para nós, uma rica fonte de ressignificação de práticas sedimentadas e, assim, questionáveis. A obra é um convite, a cada capítulo, a cada abordagem, a um novo olhar sobre o que fazemos, como fazemos e por que fazemos.

Helcio Alvim

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Postar um comentário